O FIM É O COMEÇO

A arte como expressão máxima da condição humana, como meio de reflexão sobre a nossa existência. Vera Wildner professa assim o seu ofício, apresentando- nos o seu pensamento, como um convite fraterno em busca do essencial.

Uma montagem em preto absoluto é o abre-alas da exposição. É a morte. Está tudo zerado. A ausência de cor não é falta de luz, mas o seu prenúncio, como uma tecla start pronta para dar a partida. É o mistério que antecede toda a nova experiência. Assim se apresenta a exposição de Vera Wildner, “O FIM É O COMEÇO”.

Vera utiliza três linguagens distintas para conduzir o espectador ao seu universo, às suas reflexões. Identificada com a Teoria da Complexidade de Edgar Morin, ela nos apresenta uma concepção onde o todo é composto pelas partes que dele não se dissociam. É o caminho para ver o ser humano em sua natureza complexa, de integridade entre corpo e alma.

As primeiras representações desse universo aparecem em pequenas telas retangulares que fazem lembrar as bandeirolas budistas que jogam mensagens ao vento. Elas contêm todo o necessário. Tudo a saber. Elas indicam o caminho a partir da morte.

A seguir, as telas grandes. Todo o prazer da pintura primordial, à óleo, matérica, perfumada, contemporânea. Às camadas de tinta, ora espessas, ora veladas, somam-se pigmentos puros, colagens, ouro em folha, que se oxida ao toque do óleo, esverdeando-se. Cada tela, plena em si, é a representação de uma etapa do caminho. As marcas e inscrições ainda que ininteligíveis fazem revelações.

E, por último, os oratórios. Os objetos criados por Vera que concentram a essência do seu pensamento. Cada um parece nos revelar uma verdade, ou, ao menos, nos lembrar de sua existência. A despeito disso, Edgar Morin nos diz que o fato marcante em todas as grandes obras é que não se limitam à pintura, à música, etc., são obras do pensamento, um pensamento que muitas vezes não pode se expressar em palavras.

Trata-se, afinal, da essência do ser humano, de sua busca incessante que é a compreensão do mistério da vida. E a morte? A morte é apenas o começo.

Beth Gloeden
Artista plástica, especialista em poéticas visuais.