Penso na tua obra e oh! Lugar comum, penso em azul .

Mas não é neste azul, nem naquele, no que muitas falam e já falaram antes.

Não, este não é o azul que eu vejo. Presunção minha? Quem sabe .Mas como te conheço e por te amar, amo particularmente tua obra, vejo este azul, como o teu azul, aquele que repartes como ser humano e como irmão.

Teus azuis ( já os anteriores ) vem da água que nos embala no útero materno, vem do cosmos onde, minúsculas partículas, vagamos cegos e intranqüilos.

Nas tuas telas, o azul da terra vista pelos astronautas: lindo e enganoso. Muito mais profundo do que o lirico que na aparência pode parecer.

Por isso as telas nos chamam, nos tragam e daí percebemos que a clara água, que a diáfana nuvem, não são tão límpidas assim.

Já as águas da primeira fase não nos avisavam disso?

Eles já não preveniam de que a doçura pode ser um caminho que cativa, mas nem por isso é  sinal de fraqueza ou de fugacidade?

Nesta série atual, os terríveis vãos negros corrompem o azul.

Conseguirão eles vencer a bonança? Serão suficientes os guardiães do equilibrio, da serenidade, estes signos que se reproduzem, se desdobram para defender  o azul e nos mostrar o caminho?

Eles não nos fazem esquecer que por detrás há uma treva profunda .Trabalhos apocalípticos, proféticos, lúcidos, onde a esperança ( do azul), ainda nos garante a alegria.
Sei que continuarás criando esta alegria, embora o esforço tinha que ser, quem sabe, cada vez maior.
Mas ela é, posso te garantir, absolutamente necessária!


Jane Cravo
Crítica de Arte
Outubro/1987