As Casas das Almas de Vera Wildner

São pequenas casas, altares diminutos, misteriosas conchas com portinhola, degraus e outra porta que abre para um altar mais secreto. Iguais na forma básica, diversos nos ornamentos e, possivelmente, na intenção da sua autora.

Olho essas fileiras de casas e penso no que ela me contou de sua exposição anterior, em que havia alguns desses oratórios:

No final encontrou dentro de muitas dessas casinholas bilhetes enrolados que as pessoas largavam ali, com pedidos comoventes:

“Quero um namorado legal, urgente.” “Quero que minha família tenha dinheiro para eu não precisar sair da escola.” “Quero que meu mundo tenha paz.” “Por favor me ajudem neste momento de aflição.”

A quem eram feitos os pedidos, ninguém sabe, vinham do imaginário de cada um. Mas revelavam a carência dos seres humanos, que precisam de colo e proteção, e de clemência. Sem querer, sem saber, Vera abrira naquelas portinhas muitas paisagens para que as almas viessem, entrassem, aninhassem ali sua dor ou sua esperança.

Muito além da estética, esta série funda uma nova humanização da arte: o assombro quando se entra no transcendente, esse que nos aguarda em toda obra de um verdadeiro artista. Ele é apenas um mediador entre o segredo e o olhar, entre o silêncio e o ouvido, entre a sombra luminosa e o coração.

Esses oratórios de Vera, que chamei de “casas das almas”, me impressionaram pela força de sua candura, pela solenidade de sua inocência. Que voz ressoa ali, convocando-nos a pedir, a pensar a nos deixarmos tocar?

Como os oratórios, apenas dois quadros ....... o “Nascimento” onde os pais da pintora aparecem no dia de seu casamento, o homem na sombra com que empurra docemente para a claridade a sua mulher ....... e outro, composto por dezenas de bilhetes largados cuidadosamente nos oratórios na exposição anterior.

Este será certamente um momento para se repensar a Arte, e, entre seus tantos ocultos significados, este que Vera destaca: o Sagrado.

Lya Fuft
Escritora