A escrita é uma prática primordial do homem. Um desejo ancestral de conservar suas memórias. Pintar é escrever com manchas. A escrita na arte legitima os desejos do nosso inconsciente.

Em suas pinceladas-histórias Vera Wildner vai, pouco a pouco narrando-nos seus segredos. A imagem da cruz, presente em toda sua representação é a oração mediadora de seu discurso. A imagem da cruz recaptura a criação, é o símbolo do resgate. A cruz é a via de comunicação simbólica entre o céu e a terra, acima e abaixo, o ontem e o hoje, o esquerdo e o direito, o espaço e o tempo, o divino e o humano. Na imagem da cruz, percebemos, assim a confluência dos opostos. Os quadros logo ganham dobraduras, são agora oratórios. Cofres que guardam os fragmentos remanescentes de sua infância.

Pequenas memórias, relíquias recolhidas e armazenadas em seu imaginário. No oratório central, a família, ou a saudade dela, a religiosidade, ou a crença nela, a vida, ou o desejo dela; a morte ou o medo dela. Nos outros oratórios, revestidos de pequenos espelhos, vemos nossa própria imagem. Somos personagens de seu imaginário.

Participamos de seu mantra, seu encantamento ritualístico. Rever a infância, a família e os amigos é revisitar os referentes primordiais de nossa identidade.

A cor, ou ausência dela, é o celofane transparente desse relicário de Vera Wildner. O preto central, ou a variação dele diluído nos marrons laterais, logo cruza com o branco.

Morte e vida, terra e céu, ontem e hoje, Deus e o homem mais uma vez se confrontam. O dourado, luz barroca misteriosa, ilumina todas essas caixas segredos de Vera Wildner.


Célia M. A. Ramos
Professora UDESC/CEART,
Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP
Outubro de 1996