O Ouro, o Sol, a Vertical

A obra pictória de Vera Wildner tem uma grande e obsessiva predileção: as imensidões. A imensidão do azul, a imensidão das profundezas, a imensidão das alturas, a imensidão do grande e do pequeno (e quem não concorda que as miniaturas são um confronto com a imensidão e seu desafio). Imenso significa sem medida. As coisas sem medida, são em primeiro lugar as qualidades. O trabalho pictórico de Vera Wildner, quando se move nos campos da monocromia, tem sido uma viagem pelas qualidades dos tempos e espaços sem medida.

Nos incômodos limites entre figurativo e não figurativo, o que importa é o imensurável e o imponderável do azul, do amarelo, do vermelho, do preto. E que agora alcança uma nova fase, a do dourado e do ouro.

E, se o ouro simboliza por excelência a medida, pois é a medida da riqueza e do poder, Vera Wildner, por outro lado, se insinua infantil e suavemente, pura e mansamente pela porta dos fundos da exuberância desse símbolo, associando-lhes as qualidades aos lendários tempos heróicos, os míticos tesouros, ao mundo dos reis e rainhas, dos príncipes e princesas. Mas não aqueles do mundo da história! Ao contrário, são os do mundo da estória, cercada de sonhos, imaginação e magia, castelos e fadas. Como os símbolos sobrevivem aos fatos que os geraram, e o mundo da estória é o universo dos símbolos, o dourado da mestra gaúcha e brasileira suplanta as medidas dos fatos reais que cercaram a história do ouro e das riquezas. Vera Wildner resgata a essência de uma relação matricial entre o sol, fonte dourada da luz e do calor, e o ouro, fruto dourado das entranhas da terra. Um se projeta no outro e de sua união nasce a trajetória do baixo para o alto que chamamos de vertical. Os losangos, as muralhas, o manto, o centro e o próprio rei não são outra coisa que não a representação das verticais onipresentes da vida humana. Se na vertical temos a metáfora do tornar-se homem, a infância é a sua aquisição, a velhice é a sua perda gradativa e a morte seria o retorno à horizontal da terra (e ao ouro original). Os cruzamentos de verticais e horizontais de losangos de ouro (e sol) nos apresentam essa permanente tensão que enfrentamos ao traduzir em linguagem a intraduzível qualidade das imensidões, dos infinitos e das eternidades. Vera Wildner sabe como ninguém preservar a essência ambivalente desses símbolos primordiais.

 

Norval Baitello Junior
Diretor da Faculdade de Semiótica da PUC/SP
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP
Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de Livre de Berlim