Vera Wildner

Suas telas ocupam um termo intermediário entre o espaço e a essência. As grandes superfícies pictóricas abstem-se das figuras, substituídas por signos de alcance geral. Herdeira das tendências pictóricas dos pintores filiados ao movimento Color Field, Vera Wildner amplia em seus trabalhos o alcance deste movimento. Gauguin já dizia que “Em um metro de verde se expressa mais que um centímetro de verde”. Com efeito, essas telas estão carregadas de energia, e, mesmo que estes vários campos azuis não pretendem ser dinâmicos, os signos inscritos na superfície apresentam uma radiante atividade, que faz com que o contemplador, submergido neste campo de ação encontre continuados motivos de atenção. São pinturas que tem a ver com um pensamento em busca do essencial, que induz a meditação e que desempenham uma experiência de especialidade. Convém aqui falarmos de espaço. Na filosofia antiga o problema de espaço era discutido com freqüência em termos de oposição entre cheio e vazio. Esta oposição era paralela a que existe entre matéria e o espaço e também paralela a que existe entre ser e o não ser. A discussão se alonga (através de Parmênides, Platão e Aristóteles, mas aqui nos interessa o início). Nas telas de Vera temos um espaço cheio e também um espaço vazio. Suas telas são matéria e também são espaço e ainda um campo de questionamentos entre o ser e o não ser. Suas pinturas transitam no difícil campo de questionamentos entre a representação dos sentidos e a apresentação do espaço. Essas dificuldades não são transmitidas ao contemplador que se envolve com a apresentação da espacial idade e submergem. A essência é outro pólo desta pintura. Aqui a essência é apresentada não como uma determinação qualquer da coisa ou entidade considerada, mas como uma determinação base do gênero a qual a coisa ou entidade pertence. A essência é aqui, pois, a natureza da coisa ou entidade. Seus campos de azuis são, portanto, o próprio azul e os signos inscritos nesses campos são materializações do espaço e também, negação deste mesmo espaço, pois atuam para contemplador como elementos que servem para despertar a atividade deste espaço, que de outro modo resultaria vazio. A pintura de Vera Wildner é uma experiência solitária na arte do Rio Grande do Sul, pois com sua síntese intensa propõem ao contemplador um caminho de silêncio e de recolhimento, transcendendo deles uma qualidade mística que resulta da posição espiritual tomada pela artista criadora.


Paulo Gomes
Doutor em Artes pela UFRGS
Curador Independente
Agosto de 1993